sexta-feira, 11 de março de 2011

A atitude filosófica

TEXTO-AULA N°: 02

A ATITUDE FILOSÓFICA NA VIDA:


A Filosofia está presente na vida de todos. Costumamos dizer que ela nasceu no mundo ocidental com os antigos povos gregos, embora possamos afirmar que está presente na história do ser humano desde o aparecimento das primeiras civilizações.
Em todos os momentos da vida no planeta, os homens demonstraram interesse em refletir sobre os fenômenos, naturais ou não, que faziam parte de sua existência e de sua sobrevivência, como a chuva, o sol, o fogo, os relacionamentos interpessoais e os sentimentos. Graças à observação destes fenômenos vivenciados durante milhares de anos, hoje podemos questionar, pensar e repensar nossas crenças e valores para, com isso, mudarmos de atitude frente nosso cotidiano.
Porém, toda mudança de comportamento exige reflexão e sacrifício, já que quando temos um pensamento ou atitude divergente dos outros, ou quando somos contrariados em nossas verdades, geralmente entramos em crise. Algumas pessoas, receosas de não suportarem essas crises, preferem “fazer de conta” que não há nenhum problema e vão levando a sua vida “numa boa”.
Neste momento, colocamos a seguinte questão: sou livre para fazer o que quero segundo minhas vontades e verdades ou minhas vontades e verdades dependem do outro? E mais, o que penso ser vontade? O que é liberdade? O que posso considerar como justo? Quando realmente estarei pronto para mudar significativamente minhas atitudes?
Para respondermos a estas perguntas, precisamos fazer uma profunda reflexão que nos permita observar e perceber o mundo para além daquele já conhecido, o chamado mundo aparente, como diria Platão (428/27 -347 a.C.). Pois somente o homem repensando suas vontades e verdades será capaz de mudar de atitude frente aos problemas colocados pelo cotidiano da vida. E, somente aquele homem que não se contenta com as crenças e opiniões preestabelecidas pela sociedade, pela mídia, ciência, política e cultura será capaz de elaborar um olhar crítico e criterioso sobre algo, e ir em direção à atitude filosófica.
Contudo, para fazermos esse movimento de olhar em diversas direções é necessário produzir um tipo de reflexão que nos predisponha a mergulhar de maneira profunda e apaixonada no conhecimento que queremos ter da realidade a nossa volta e, principalmente, do quanto queremos conhecer de nós mesmos. Como dizia Sócrates (470 – 399 a.C), “Conhece-te a ti mesmo”. Este é, sem dúvidas, o primeiro passo para adotarmos a atitude filosófica em nossas vidas.
Prof. de fil. Luciano Tavares Torres

O que é filosofia?

1ºBim. /Texto-aula: nº01

1. O que é filosofia?

não é possível aprender qualquer filosofia; só é possível aprender a filosofar.
Kant


Toda às vezes que é pronunciada a palavra filosofia em uma roda de bate-papo de amigos, logo percebemos que seu conceito, por vezes é mal entendido ou interpretado. Acredito que isso ocorre, por tal palavra (filosofia), ser carregada de mistérios, justamente por ser ela um conceito muito amplo e ao mesmo tempo abstrato.
Essa visão da filosofia certamente decorre dos diversos pensadores que por ela existiram e que com suas reflexões e críticas, geralmente polêmicas, foram a cada dia que passava ficando mais longe e isolados das sociedades que viviam. Indagações sobre o belo, gosto, amor, valor, moral, natureza, homem, foram apenas uns dos diversos exemplos que poderíamos citar como conceitos e temas mais recorrentes na história da sociedade e que os filósofos faziam questão de polemizar e, por vezes, destruir.
É evidente que tais inquietações custaram “caro” para muitos desses filósofos, sendo alguns punidos com a prisão ou sendo expulsos de seus países de origem e outros, como o próprio Sócrates, pagando um preço bem mais alto daquilo que questionava na sociedade Grega antiga, que foi com sua própria vida, que é para todos os filósofos o bem maior do homem.
Desta forma, podemos considerar que o primeiro passo para a elaboração de um pensamento filosófico é o questionamento. O grande objeto de estudo da filosofia é a própria capacidade do homem pensar, reflitir e questionar. É devido essa autonomia do pensamento humano que é possível mudarmos de posturas, posicionamentos sociais, culturais, políticos, entre outros e que nos permite mergulhar de modo profundo no conhecimento gerado no mundo.
Por conta desse “mergulho de ponta” que o homem e, em especial o filósofo, é capaz de dar em direção à essência da vida que é importante e necessário ser “radical” na sua forma de agir e pensar. Ser radical para o filósofo não é ser intransigente, ou seja, aquele que não sabe reconhecer erros ou mudar de posição quando necessário. Para a filosofia, ser radical é ter sistema, método, organização no modo de pensar, coerência, capacidade de argumentar, flexibilizar e de repensar criticamente posturas com intuito de compreender a partir de suas próprias experiências, a si mesmo e tudo que o cerca.
A grande originalidade da filosofia está na surpreendente aventura de idéias que nos identifica e nos diferencia em direção a outros seres. É por essa capacidade de aprofundamento da vida por meio da razão humana que identificamos a filosofia como fundamento dos conhecimentos específicos, como a matemática, história, física, geografia, biologia, entre outras, mas, nunca como um fundamento em si mesma. A filosofia portanto, deve ser utilizada como mais um instrumento para a ampliação e aquisição de novos conhecimentos e experiências de vida.

Filosofia e o filosofar

O sentido de filosofia ou de filosofar está diretamente relacionado com o pensamento ou com o ato de pensar. Porém, todas às vezes que tentamos definir filosofia, sempre partimos de dois princípios básicos: o primeiro é aquele relacionado às pessoas que dizemos estar com a “cabeça no mundo da lua”. Quando falamos que alguém está filosofando é porque vemos a pessoa pensando sobre o significado da vida humana. Contudo, por mais que aceitemos no senso comum esta definição de filosofar – relacionado ao pensamento do homem sobre os fatos da vida – o seu real significado é muito mais amplo.
O outro modo de tentar definir filosofia é dizer que ela é um modo do homem em saber viver com sabedoria. Todavia, este conceito está muito vinculado à sabedoria oriental onde as doutrinas estão vinculadas à religião. Apesar da filosofia discutir religião, não significa que a religião possa definir o que é filosofia.
Diferentemente do que foi dito anteriormente, o conceito de filosofia compreendida dentro dos estudos filosóficos propriamente ditos é a capacidade do homem em tentar dizer sobre a verdade daquilo que se pensa de modo racional sem se deixar levar por princípios religiosos, doutrinários ou ideológicos. Pensar filosoficamente é questionar o óbvio. Todavia, por mais que o filósofo seja aquele que discute e questiona o aparentemente inquestionável, que critica tudo e a todos, na verdade ele tenta com a filosofia despertar no homem a capacidade de identificar e conhecer melhor o que está sendo observado.
Na tradição filosófica dizemos sempre que todo filósofo é um porta-voz do povo e nunca um gênio perturbado que vive de modo isolado no mundo. O filósofo é aquele que é tomado de questionamento e de observações do contexto da realidade que vive. Como dizia o filósofo alemão Hegel: o filósofo não inventa a realidade, mas interpreta a realidade em que vive. O filósofo tenta a toda pergunta que se faz chegar à essência.
O filósofo é aquele que reflete, pensa e reflete novamente sobre o que foi pensado anteriormente. O pensador da filosofia é aquele que busca pensar o próprio pensamento, é aquele que toma ele próprio como objeto de suas reflexões. Talvez essa seja a grande virtude do homem, de conhecer e saber que conhece e de “dar conta” que também desconhece e que é necessário conhecer mais. O filósofo também alemão Theodor Adorno disse que só se põe a filosofar quem suporta a contradição, o conflito.
Desse modo, filosofar é se responsabilizar com as reflexões feitas frente ao outro. E, isso significa que ter atitude filosófica é mais do que dizer aquilo que você acha, é tentar estabelecer frente à questão discutida um saber lógico, rigoroso e que tenha sentido superando o senso comum.

Prof. de fil. Luciano Tavares Torres

Feliz 2011!!!

Sejam todos bem-vindos à nossa nova série. Espero que estejam animados para os estudos de filosofia e sociologia.

Este blog tem como função disponibilizar os textos de interesse do professor. Portanto, é extremamente importante ficarem atentos, pois constantemente será atualizado.


Abraços, Luciano.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

FILOSOFIA

TEXTO - 4º BIMESTRE 2010
As concepções da verdade e a História

As várias concepções da verdade que foram expostas estão articuladas com mudanças históricas, tanto no sentido de mudanças na estrutura e organização das sociedades, como quanto no sentido de mudanças no interior da própria Filosofia.
Assim, por exemplo, nas sociedades antigas, baseadas no trabalho escravo, a idéia da verdade como utilidade e eficácia prática não poderia aparecer, pois a verdade é considerada a forma superior do espírito humano, portanto, desligada do trabalho e das técnicas, e tomada como um valor autônomo do conhecimento enquanto pura contemplação da realidade, isto é, como theoria.
Nas sociedades nascidas com o capitalismo, em que o trabalho escravo e servil é substituído pelo trabalho livre e em que é elaborada a idéia de indivíduo como um átomo social, isto é, como um ser que pode ser conhecido e pensado por si mesmo e sem os outros, a verdade tenderá a ser concebida como dependendo exclusivamente das operações do sujeito do conhecimento ou da consciência de si reflexiva autônoma.
Também nas sociedades capitalistas, regidas pelo princípio do crescimento ou acumulação do capital por meio do crescimento das forças produtivas (trabalho e técnicas) e por meio do aumento da capacidade industrial para dominar e controlar as forças da Natureza e a sociedade, a verdade tenderá a aparecer como utilidade e eficácia, ou seja, como algo que tenha uso prático e verificável. Assim como o trabalho deve produzir lucro, também o conhecimento deve produzir resultados úteis.
Numa sociedade altamente tecnológica, como a do século XX ocidental europeu e norte-americano, em que as pesquisas científicas tendem a criar nos laboratórios o próprio objeto do conhecimento, isto é, em que o objeto do conhecimento é uma construção do pensamento científico ou um constructus produzido pelas teorias e pelas experimentações, a verdade tende a ser considerada a forma lógica e coerente assumida pela própria teoria, bem como a ser considerada como o consenso teórico estabelecido entre os membros das comunidades de pesquisadores.
A verdade, portanto, como a razão, está na História e é histórica. Também as transformações internas à própria Filosofia modificam a concepção da verdade. A teoria da verdade como correspondência entre coisa e idéia, ou fato e idéia, liga-se à concepção realista da razão e do conhecimento, isto é, à prioridade do objeto do conhecimento, ou realidade, sobre o sujeito do conhecimento. Ao contrário, a concepção da verdade como coerência interna e lógica das idéias ou dos conceitos liga-se à concepção idealista da razão e do conhecimento, isto é, à prioridade do sujeito do conhecimento ou do pensamento sobre o objeto a ser conhecido.
As concepções históricas e as transformações internas ao conhecimento mostram que as várias concepções da verdade não são arbitrárias nem casuais ou acidentais, mas possuem causas e motivos que as explicam, e que a cada formação social e a cada mudança interna do conhecimento surge a exigência de reformular a concepção da verdade para que o saber possa realizar-se.
As verdades (os conteúdos conhecidos) mudam, a idéia da verdade (a forma de conhecer) muda, mas não muda a busca do verdadeiro, isto é, permanece a exigência de vencer o senso-comum, o dogmatismo, a atitude natural e seus preconceitos. É a procura da verdade e o desejo de estar no verdadeiro que permanecem. A verdade se conserva, portanto, como o valor mais alto a que aspira o pensamento.

Bibliografia:
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, 2000.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

SOCIOLOGIA

TEXTO - 4º BIMESTRE 2010

Afinal, o que é sociologia?
A sociologia: compromisso com o conhecimento:
Como você pôde compreender, a sociologia nos auxilia a entender os vários aspectos da formação de um cidadão consciente e atuante. As problematizações de vários aspectos da vida social e a subseqüente reflexão sobre eles provavelmente provocaram mudanças no modo de ver ou de considerar os acontecimentos sociais.
Nesse sentido, avaliamos que estudar a sociedade é completamente diferente de estudar o mundo físico, ou seja, a sociedade não é um fato natural, mas uma construção social. Por exemplo: a pobreza e a exclusão social são fenômenos sociais e, como tais, decorrentes tanto da estrutura social quanto da ação dos diferentes agentes sociais. Como exemplo de instituições familiares que sofreram com grandes modificações no transcorrer do processo histórico.
A constituição da família está diretamente relacionada com aspectos primordiais da vida social: ou antes, com o modo de organização da própria sociedade. Assim, a organização da vida familiar não depende apenas das escolhas dos responsáveis por ela (geralmente um homem e uma mulher), mas da própria organização da vida social. Isso significa que a família continua a transformar-se: as modificações ocorridas em seu interior representam uma tendência social. A atual propensão para o desaparecimento das famílias numerosas, que são substituídas por famílias menores, compostas por até quatro pessoas, constitui um novo fenômeno social, assim como, é normal famílias que optam por não terem filhos.
Outro fenômeno é o número de pessoas que moram sozinhas. Morar sozinho ou manter um relacionamento amoroso são alternativas sociais, não cabendo a sociologia julgá-las, e sim compreendê-las no âmbito dos processos históricos-sociais.
Contudo, somente é possível as transformações sociais se estes estiverem associados à construção da cidadania e à expansão e à consolidação dos valores democráticos. O papel da escola na formação dos indivíduos é fundamental até porque ela é uns dos poucos instrumentos possíveis para a formação do cidadão e para o acesso aos principais postos do mercado de trabalho.
A investigação sociológica não privilegia apenas a relação entre o indivíduo e a sociedade nem se contenta em estudar as principais instituições sociais, como a família e a escola, mas também se volta para a análise das grandes estruturas sociais, como o Estado ou os processos econômicos. Ou seja, a Sociologia comporta tanto uma visão micro quanto uma visão macro de mundo.
Os estudos sociológicos também ensinam a desconfiar das aparências sociais ou de valores dominantes, demonstrando que a visão do senso comum sobre a sociedade pode ser enganosa, preconceituosa ou estereotipada. A sociologia mostra que o mundo social nem sempre é realmente como aparece à primeira vista. Isso equivaleria, no campo das ciências naturais, a considerar verdadeiro o que se manifesta de imediato aos sentidos: um pesquisador que procedesse desse modo não hesitaria em dizer que a Terra seria o centro do mundo e que o sol gira ao redor dela!
A aparência social constitui a ideologia de um grupo, podendo se expressar na linguagem, na ordenação sintática das frases, nos chavões e clichês sociais, nas piadas, nas frases, nos slogans sociais, etc.
Como podemos perceber, a Sociologia é uma disciplina que tenta a todo instante captar as contradições sociais e acompanhar em certa medida o dinamismo da sociedade, para que a partir daí possa conhecer mais de perto o homem e todo seu contexto social.

Blibliografia:
Cristina, Débora de., Faroni, Alexandre. Ser Protagonista – Sociologia. Vol. Único.2010. Ed. SM.
Adaptação de texto Luciano Tavares To
rres.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

3o BIMESTRE... CHEGOU!

Política e religião

A violência está presente em nosso cotidiano – inclusive assumindo formas dissimuladas. Ela reina na periferia das grandes cidades, envoltas numa guerra civil diária não assumida pelas autoridades; ela é prevista e legitimada no poder político, isto é, constitui uma das funções do Estado, mesmo o democrático. Qual Estado pode abrir mão do recurso da coerção e de todos os
meios necessários para forçar os cidadãos a obedecer a ordem dominante?
Tudo isso parece não existir para determinados indivíduos que vivem no mundo das nuvens e reduzem as contradições sociais à eterna luta do bem contra o mal. Como que num transe coletivo, mas que paradoxalmente objetiva a salvação individual, estes guardiões da moral e dos bons costumes adotam uma postura apolítica e voltam-se para o intimismo. São profetas bem intencionados que constroem a cidade de Deus, isto é, cuidam das suas almas. As questões sociais que assolam este país passam ao largo. Sobram discursos que garantem audiência e, por trás da histeria coletiva e individual, cada um busca sua própria salvação, ainda que afirmem amar ao próximo! Eles se aglomeram e oram, mas se limitam ao individualismo egoístico espiritualizante.
Ledo engano! A individualização das soluções para problemas terrenos, sociais, econômicos e políticos, deslocados para um plano transcendental e intimista também cumpre um papel político: alivia a pressão e funciona como uma espécie de anestesia coletiva. Afinal, este intimismo religioso não questiona a realidade social desigual e desumana, nem inquire sobre os responsáveis por tal situação. Induz ao conformismo! Que se entregue à divindade o bônus e o ônus! Ele assim o quis, assim o será! Que as coisas permanecem como estão; a nossa recompensa está no além. Essa mensagem de resignação é mais antiga do que parece. [4] Ontem como hoje, os poderosos agradecem a tais profetas.
Eis como a religião no mundo atual adentra na política: afastando-se desta ou procurando instrumentalizá-la em nome de uma moral fundamentalista. Esta postura individualista e/ou conservadora é a resposta aos que vêem na religião uma força que deve se aliar à política para construir o reino de Deus aqui na terra, mas numa perspectiva coletivista e que pressupõe uma opção política pelos pobres e oprimidos.
O senso comum diz que religião e política não se discutem. Pelo contrário, precisamos refletir sobre a relação entre violência e política e, por outro lado, entre estas e a religião. Um simples olhar sobre a história da humanidade evidenciará a simbiose existente entre política, religião e violência. Como podemos esquecer, por exemplo, a barbárie dos ‘santos inquisidores’ de ontem e de hoje, uns em nome de Deus, outros em nome da razão do Estado? E o horror da noite de São Bartolomeu? Que seria dos conquistadores da nossa América se não utilizassem os recursos da Santa Madre? Seria a violência política suficiente para subjugar os povos dessas terras? E não foi a religião o cimento ideológico que justificou barbaridades como a escravidão do negro e a submissão secular da mulher? O puritanismo protestante foi empecilho para a dizimação dos povos indígenas na América do Norte? E as risíveis cenas, se não fossem trágicas, de religiosos, de um e outro lado, santificando exércitos em guerra?
Gostemos ou não, política, violência e religião entrelaçam-se em diversos contextos históricos. Há mesmo determinadas circunstâncias onde estão de tal forma amalgamados que é difícil distinguí-los. Assim, a luta entre o Parlamento e a Coroa inglesa no século XVII parece, ao estudioso desavisado, simples disputa religiosa entre puritanos, anglicanos e católicos. O mesmo podemos observar quanto ao conflito histórico entre protestantes e católicos na Irlanda e entre palestinos e israelenses no oriente médio. Em ambos os casos, fatores político-sociais secularmente sedimentados e influenciados pelas mudanças na política internacional produziram realidades complexas com problemas aparentemente insolúveis fora do recurso à violência. E mesmo quando busca-se uma solução pacífica, resultante das pressões políticas internas e externas dentro de uma nova realidade internacional, a violência não está descartada. E tudo parece uma disputa religiosa...
Os exemplos são muitos. Podemos encontrá-los inclusive em nossa história. Para não nos alongarmos, lembremos apenas que nossa frágil democracia conheceu poucos períodos onde pôde desenvolver-se pacificamente. Na República Velha, a oligarquia cafeeira tratou a questão social como caso de polícia e teve que enfrentar a revolta armada da classe média da época: o movimento tenentista. Esse movimento gerou a ‘Revolução de 30’, um ato violento que, entre outras coisas, fecundou o Estado Novo. Na ditadura estadonovista de Vargas, cristãos que simpatizavam com os americanos ou com os nazi-fascistas se uniram contra o inimigo comum, identificado com o próprio demônio na terra: o comunismo. A política, de novo, recorreu aos valores morais-religiosos para justificar o regime de exceção e a repressão.
Na segunda metade dos anos 40 tivemos a ilusão democrática da legalidade para os comunistas. Parecia então que o demônio fora exorcizado. Sabemos o final desta história: nova onda repressiva, ilegalidade, clandestinidade. A democracia da guerra fria, em nome da liberdade e dos valores democráticos, inverte a ordem dos valores: antidemocráticos são os outros, os comunistas. Dessa vez, porém, não precisou recorrer à religião (pelo menos não diretamente).
Em 1964 a religião foi novamente utilizada na cruzada contra os esquerdistas — o que na época significa avanços das lutas dos trabalhadores. As madames católicas saíram às ruas em marcha fortalecendo a base social golpista; a cúpula da Igreja silenciou e/ou apoiou os golpistas. Mas, também é verdade que setores minoritários dessa mesma Igreja adotaram uma postura corajosa e favorável aos explorados e oprimidos, contra o golpe militar, pela democracia e por uma sociedade justa e igualitária. De qualquer forma, política, violência e religião mesclam-se.
Política e violência unem-se ainda na resistência ao golpe. De um lado a repressão militar, as torturas, os desaparecimentos de filhos e filhas da nossa terra; de outro, a ilusão de que o povo enfrentaria em armas a ditadura militar impulsionado pelo exemplo da sua vanguarda. Às mães e pais desses jovens que sucumbiram nas garras do aparato repressivo estatal e paraestatal restaram a dor e a triste realidade de quem nem tem o corpo querido sobre o qual chorar. Para os que professam a fé restava o consolo da religião.
A democracia que temos foi regada com sangue. Não podemos esquecer o passado. Temos a obrigação de legar às futuras gerações uma história que, quando muito, é tratada nos livros e bancos escolares. Lembremos dos que, com erros e acertos (mas só erra quem age) dedicaram a vida ao povo, ao sonho de uma vida melhor para os excluídos da cidadania. Ontem tratados como terroristas, hoje como subversivos e outros epítetos. Seus nomes são vários. Lembremos de dois: Carlos Marighella, assassinado pela ditadura em 04 novembro de 1969; e, Santo Dias, assassinado pela polícia sob o governo Maluf em 30 de outubro de 1979. Um, guerrilheiro e comunista; outro, operário metalúrgico, militante da Pastoral Operária. Eis a política, a violência e a religião em ação...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

SOCIOLOGIA

3º Bimestre

A escola e o controle social


Você já pensou como seria a sociedade se não houvesse normas e regras baseadas nos valores aceitos e já consagrados por ela e que devem ser seguidas por todos? Certamente seria difícil ou até mesmo impossível pensar em socialização sem essas bases. É por isso que a própria sociedade cria mecanismos para coagir os indivíduos a se comportarem de acordo com esses princípios estabelecidos. Espera-se que cada um desempenhe seus papéis sociais. Quando isso não acontece faz-se necessário algum tipo de controle, que pode ser social ou individual.
Percebeu que tipo de relação está por trás do que está se discutindo? Acertou! É uma relação de poder, na qual alguém que exerce o poder impõe aos outros indivíduos o seu ponto de vista ou as suas regras. Mesmo quando está se falando em sociedade, sempre há alguém que efetivamente desempenha o papel de controlar os demais. Mas é interessante observar que o controle social não tem um agente específico; pelo contrário, pode acontecer de várias formas.
Segundo Lenhard, padrões sociais de comportamento são “regularidades que a sociedade impõe mediante uma coação que pode variar entre intensa e aberta, por um lado, e suave e sutil, por outro”. (1985,p81). Ainda de acordo com o autor, esses padrões “diferenciam-se, uns dos outros, segundo o grau de obrigatoriedade com que são impostos e segundo a sua persistência”(p.81). Assim, o que se pode entender é que esses modelos de comportamento que servem de base para o desenvolvimento do grupo social e para avaliação do próprio grupo estão profundamente ligados a questão de poder. Uma vez que pode haver imposição de um padrão de comportamento, podemos concluir que haverá algum ou um determinado grupo que dispõe de mecanismos para conseguir isso e que esses estão baseados numa relação de força estabelecida de acordo com o desejo e/ou interesse de quem exerce o poder.
Esse aspecto é importante para entendermos porque certos comportamentos considerados desviantes podem ser tão fortemente combatidos: eles podem abalar a ordem estabelecida e até mesmo questionar a própria estrutura de poder. Segundo o grau de obrigatoriedade dos padrões de comportamento, podem ser definidos por usos, costumes, moral e lei. Pense numa escala crescente em termos de constrangimento ou da força que é imposta ao indivíduo, vamos dos costumes às leis, sendo essa forma a que mais se aproxima da obrigação. Todos somos obrigados a respeitar certas leis; entretanto, entendemos que nem todas, caso sejam desrespeitadas, implicam em danos morais sérios para o grupo social.
Os costumes chamados de mores pelos sociólogos, tem uma forte conotação moral, estão ligados ao que a sociedade considera como sendo o aceitável. Finalmente, os usos são aqueles padrões seguidos pelos membros de um grupo de uma forma quase “natural”, sem que haja a necessidade de imposição social mais explícita. É o caso, por exemplo, de se respeitar os horários convencionais pelo grupo para se fazer as refeições. Os usos e costumes mudam mais rapidamente e com mais facilidade do que as leis, as quais demandam muitas discussões antes de serem alteradas.
A persistência ou a mudança de padrões de comportamento dependerá bastante da importância que a sociedade dá para certos valores, podendo mudar com facilidade ou até mesmo transformar-se num tipo de tradição.


Padrões sociais de comportamento

Os padrões sociais de comportamento são construídos historicamente ao longo do desenvolvimento da sociedade, de acordo com o contexto de cada época. As regras, normas e valores sociais não são estáticos. Bem, isso você já sabe não é? Mas é importante lembrar que não deixam de existir em momento algum; apenas são substituídos por outros, mais adequados à conjuntura do momento. E, é claro, nem sempre as coisas mudam tão rapidamente. Às vezes, é preciso muito tempo ou alguma transformação radical na estrutura da sociedade para que se possa perceber que as regras do jogo mudaram. Sim, do jogo, porque a vida em sociedade não deixa de ser um jogo, no qual cada peça desempenha um papel e tem uma função específica.
É por meio do controle social que a sociedade, por meio de seus agentes socializadores, consegue pressionar seus membros no sentido de apresentarem o comportamento esperado de acordo com os papéis que cada indivíduo desempenha, sempre no sentido de reforçar as atitudes e os valores permitidos e aceitos socialmente. A persuasão ou a coersão serão os meios utilizados na maioria das vezes para exercer o controle sobre os membros da sociedade, reforçando as atitudes “adequadas”.
Uma das formas de controle social mais eficazes na atualidade são os meios de comunicação de massa, especialmente a mídia eletrônica. Como você sabe, o fornecimento de modelos de comportamento e de atitudes encontra nessa forma de comunicação um agente de socialização. Para o bem e para o mal, digamos assim, de modo geral contribui para consolidar uma sociedade pautada no consumismo, no imediatismo e na transmissão e debates de fatos importantes para a sociedade. Dessa maneira não deixa de exercer seu papel educativo, mesmo que nem sempre esteja contribuído para a formação e/ou consolidação da cidadania da população.
Mas como estabelecer o que é um comportamento “adequado”? É pelo processo de socialização que se aprende, desde criança, como devemos nos comportar em cada situação social, tendo quase sempre um referencial para isso, que normalmente é a família, ao lado da escola. Esses padrões regulares de comportamento podem ser determinados pelos diversos agentes de socialização sujeitos às mudanças decorrentes de uma nova configuração do poder, de acordo com os interesses do estrato social dominante.
É importante lembrar que esses comportamentos ditos adequados estão fortemente relacionados ao que se entende por papel social já que as normas e regras de condutas são estabelecidas de acordo com as expectativas em torno da(s) função(ões) que o indivíduo tem na sociedade. É o papel social que de certa maneira “amarra” os sistemas de conduta, dando-lhes legitimidade e garantindo a estabilidade social. Na medida em que o indivíduo não consiga se adequar e/ou não aceite o (s) papel(eis) que lhe foi (foram) atribuído(s), pode reagir de forma a desestabilizar o sistema social como um todo provisória ou permanente.
Isso quer dizer que nem sempre é possível manter um nível de relacionamento baseado na harmonia, uma vez que cada indivíduo estará sempre em busca de satisfação dos seus próprios interesses. Por mais que entenda como fundamental manter um comportamento dentro do que se espera, a partir dos papéis sociais que desempenha, a partir da posição social que ocupa por conta da valorização desses papéis, em algum momento pode começar a achar que deve ou precisa mudar. E o primeiro sinal de mudança poderá ser visto já no seu comportamento.

Bibliografia:
- Demeterco, Solange Menezes da Silva. Sociologia da educação. Curitiba: IESDE Brasil S.A. 2006. 96p.